
as dunas e que a flor de laranjeira rebentou pelos caminhos,
encantando as viagens; que os morangos crescem, se os dedos
se aproximam, e que já se ouve, ao longe, um rumor de asas
contrário a qualquer vento. Falam de um perfume estranho
que paira pela cidade e das palavras soltas que os rapazes
andaram a escrever pelos muros em segredo, E eu não sei nada
disto que me contam, nem me aparece a luz quente que,
como dizem, afaga de manhã os ombros de quem passa e vai
a outro lugar sentir o mesmo lume. E eu também já não sinto
a primavera: os dedos doem-me nos livros, sento-me de noite
à janela. Olho a lua que já não posso ter. Escondo-me
dos gatos. Dispo-me e vou dormir lá fora com as aves.
Maria do Rosário Pedreira