1.16.2008

Crónica


Eram barcos e barcos que largavam
fez-se dessa matéria a nossa vida

marujos e soldados que embarcavam
e gente que chorava à despedida

Ficámos sempre ou quase ou por um triz

correndo atrás das sombras inseguras

sempre a sonhar com índias e brasis

e a descobrir as próprias desventuras

Memória avermelhada dos corais

com sangue e sofrimento amalgamados

se rasga escuridões e temporais

traz-nos também nas algas enredados


E ganhou-se e perdeu-se a navegar

por má fortuna e vento repentino
e o tempo foi passando devagar

tão devagar nas rodas do destino

Que ou nós nos encontramos ou então

ficamos uma vez mais à deriva
neste canto que é nosso próprio chão
sem que o canto sequer nos sobreviva

Vasco Graça Moura