1.16.2008


Esta coisa deslumbrante de seres poeta

sem prevenires antecipadamente o mundo

ou a dor que alimenta o verso,

a alegoria que algures visita o pensamento

ou o seu reverso.


Esta coisa absurda de pensar o amor,

onde a carne apenas palpita, no sonho,

o anverso da ilusão, a casa, a consciência,

empurrando a mão, o corpo, a oprimir o esgar

aziago da mais obscura solidão.


Esta coisa de se ser poeta e gostar

insistindo na palavra que veste o vento

a ideia de que a metáfora mora mais além,

no lugar onde a rima não quer chegar,

ignorando o seu sentido, a fonética, a luz

necessária para iluminar um aconchego.


Esta coisa de nascer, hoje, com destino,

e avançar pelas serranias, de braços abertos,

é tudo quanto nos faz despertos e sãos

para adormecermos, um pouco ou nada,

nas páginas de livros fechados

onde um dia, sem querermos, acordamos

de madrugada nas mãos da liberdade

e abraçados como irmãos.

David Mourão-Ferreira