2.07.2008



Não existem imagens através desta sombra
a que chamo sombra mas não sei se é uma sombra
Apenas os arbustos nebulosos enunciam a monótona opacidade do real
alheio ao meu desejo do alvor de uma figura
Talvez nunca saiba desenhar o puro semblante
plácido e enigmático de fronte lunar
que um dia entrevi sob as pálpebras como um bálsamo de sombra
e de luz violeta Quis então oferecer não todo o meu corpo
mas a parte mais alta e subtil a esse rosto de mulher
e para sempre consagrar o que em mim é a atenção suspensa
sobre todas as formas do silêncio e o ténue e brando
sorriso que às vezes aflora ao meu lábio como flor de delgada inocência
Em cálida chegada de invasão tão suave de matizes tão leves
a doce primavera abriu os cálices de amendoeira do meu corpo
e em puro gozo em desvario suave entreguei-me à brancura
daquele corpo invisível de imaculada fonte
e bebi a água límpida e fresquíssima do seu seio
O que escrevo deveria ser o movimento de um músculo suave
e acender um fogo enternecido e delicado no silêncio do ar
ou ter o lento brilho do interior da água
ou não mais que um pulso ténue uma folha o segredo branco de uma estrela



António Ramos Rosa