A taça vazia

De muitas das coisas, das que mais amo são as fogueiras.
Às vezes acendem-se à beira do mar, uma grade
quebra nos rolos de fumo onde podia agora a tua boca
curvar-se para a minha.
Cobrem o céu com a carlinga abrupta dos clarões,
semeiam a noite de inverno, a noite, ramagens, troncos,
a solidão das faúlhas, a granada que não vais lançar.
Quantas vezes ao encontrar um corpo, depois
das conversas espias que produzem o encantamento,
descubro que não encontrei ninguém.
Deitavas-te na banheira, só a água te prendia,
esse motim de cicatrizes navegantes
a que chamei nostalgia no bastião das ruas.
Tu sabes como cantam ainda, futuras, fortuitas,
a toalha, a colónia, o talco, tu sorris,
não é a mim mas ao que vem, ao golpe da cada um.
Vagas do fundo do céu afastam-nos do gatilho
da fogueira sem fim, a encina, o canavial,
primeiro incendiado, depois um mapa que desiste
alguém, nós dois, vê-se de alto a baixo rasgado.
Quantas vezes, depois de enredos furtivos, descobri
que nada nos teus olhos seguia o que meus olhos viam.
Cavalo e cavaleiro paravam no descampado de febre.
E já era tarde. A primeira geada, a harmonia da extinção.
Joaquim Manuel Magalhães