ao Rui Knopfli e ao Eugénio Lisboa
Os mortos tombam no poema.
Nada os ampara. Nem a luz
acanhada do candeeiro
quando escrevo na obscuridade
ao pulsar da mão emboscada
na metáfora que me conduz.
Na incerta madrugada
diviso os rostos mutilados
que vigiam os meus gestos
e narram sonhos degolados.
O algoz estilhaçou o coração
frágil da criança aos gritos
nas imagens do apocalipse na televisão.
Na ignomínia noticiada pelos jornais
esta consentida memória dos mortos
para sempre insepultos
porque não existe vala comum
para os gritos da mulher
rasgada à baioneta
numa manhã inocente.
Não se enterram os sonhos
dos mutilados em perfil
no chão ultrajado
desta pátria dividida.
Nelson Saúte
Moçambique
Moçambique