2.20.2008

A Arte Poética


A poesia do abstracto...

Talvez.

Mas um pouco de calor,

A exaltação de cada momento

É melhor.

Quando sopra o vento

Há um corpo na lufada;
Quando o fogo alteou

A primeira fogueira,

Apagando-se fica alguma coisa queimada.

É melhor...

Uma ideia

Só como sangue de problemas;

No mais, não,
Não me interessa.

Uma ideia

Vale como promessa

E prometer é arquear

A grande flecha.

O flanco das coisas só sangrando me comove,
E uma pergunta é dolorida
Quando abre brecha.

Abstracto!
O abstracto é sempre redução,
Secura;
Perde -

E diante de mim o mar que se levanta é verde:

Molha e amplia...

Por isso, não:

Nem o abstracto nem o concreto
São propriamente poesia.
A poesia é outra coisa.

Poesia e abstracto, não.

Vitorino Nemésio